A CEIA
Marcia Brack da Costa
Estávamos todas reunidas naquela noite. Estaríamos plenas, não fosse, a presença da velha cadeira de jacarandá de braços largos esculpidos a mão, postada á cabeceira da mesa, ter seu acento vazio á espera dele.
Os pratos, talheres e cristais colocados de forma elegante e minuciosa sobre a delicada toalha de cambraia branca bordada com as próprias mãos de mamãe e sempre muito bem engomada e passada por ela.
Um profundo e doloroso silêncio fazia-se presente naquela sala fria que antes me parecia tão quente e aconchegante. Eu e minhas duas irmãs, Mariana e Letícia trocávamos olhares inquisitivos. Porém, nenhuma de nós ousava tecer qualquer comentário desrespeito á ausência dele.
Ao desviar o olhar em direção á mamãe, vislumbrei uma mulher ainda forte e altiva, de postura ereta recostada na cadeira, mãos uma sobre a outra, postas sobre o colo, olhos firmes e precisos apontados para as grandes portas de vidro da sala de jantar aguardando sua chegada. Não nos via. Sequer dirigia-nos qualquer palavra.
Pus-me a observar com ela, as grandes portas. E por ter certeza, não esperava como mamãe, ver seu vulto aproximando-se por traz dos ramalhetes de pequenas rosas jateados nos vidros das portas, pousando suas mãos sobre os puxadores dourados e abrindo-as, revelando um sorriso de saudade e carinho como sempre costumava fazer.
Por alguns instantes, tive a sensação de vê-lo entrando na sala, pude sentir sua aproximação e suas mãos passando suavemente sobre meus cabelos, cheguei mesmo a oferecer meu rosto para receber seu terno beijo.
Fazia isso religiosamente todas as noites com cada uma de nós. Depois, aproximava-se por traz de mamãe sentada á mesa, com um dos braços, enlaçava seu corpo, beijava-lhe suavemente os lábios, trazia a mão que estava escondida nas costas e oferecia-lhe um botão de rosa vermelha roubado do jardim.
Víamos mamãe sorrir apaixonada e achávamos tão engraçado. Trocávamos olhares travessos e não conseguíamos conter os risos, escondendo com as mãos nossas bocas. Ele erguia-se, direcionava-nos um breve olhar sisudo seguido por um carinhoso sorriso paternal.
Sentava-se à mesa e pedia o jantar.
Minhas lembranças foram subitamente interrompidas pela queda de um talher ao chão, quebrando aquele tão doloroso silêncio daquela sala triste, outrora infestada de tanta alegria.
Já fazia muitos anos que eu e minhas irmãs tínhamos saído daquela casa, tínhamos nossas próprias vidas, nossos próprios amores e nossas próprias famílias. Porém, uma vez por ano, no dia do seu aniversário, nos reuníamos sempre e revivíamos aqueles deliciosos momentos de nossa infância.
Este ano, ele não estará presente, nós sabemos. Mariana, Letícia e eu. Mas mamãe ainda o espera, a velha cadeira de jacarandá ficará fazia e não vai haver jantar.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
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