terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Ceia

A CEIA
Marcia Brack da Costa

Estávamos todas reunidas naquela noite. Estaríamos plenas, não fosse, a presença da velha cadeira de jacarandá de braços largos esculpidos a mão, postada á cabeceira da mesa, ter seu acento vazio á espera dele.
Os pratos, talheres e cristais colocados de forma elegante e minuciosa sobre a delicada toalha de cambraia branca bordada com as próprias mãos de mamãe e sempre muito bem engomada e passada por ela.
Um profundo e doloroso silêncio fazia-se presente naquela sala fria que antes me parecia tão quente e aconchegante. Eu e minhas duas irmãs, Mariana e Letícia trocávamos olhares inquisitivos. Porém, nenhuma de nós ousava tecer qualquer comentário desrespeito á ausência dele.
Ao desviar o olhar em direção á mamãe, vislumbrei uma mulher ainda forte e altiva, de postura ereta recostada na cadeira, mãos uma sobre a outra, postas sobre o colo, olhos firmes e precisos apontados para as grandes portas de vidro da sala de jantar aguardando sua chegada. Não nos via. Sequer dirigia-nos qualquer palavra.
Pus-me a observar com ela, as grandes portas. E por ter certeza, não esperava como mamãe, ver seu vulto aproximando-se por traz dos ramalhetes de pequenas rosas jateados nos vidros das portas, pousando suas mãos sobre os puxadores dourados e abrindo-as, revelando um sorriso de saudade e carinho como sempre costumava fazer.
Por alguns instantes, tive a sensação de vê-lo entrando na sala, pude sentir sua aproximação e suas mãos passando suavemente sobre meus cabelos, cheguei mesmo a oferecer meu rosto para receber seu terno beijo.
Fazia isso religiosamente todas as noites com cada uma de nós. Depois, aproximava-se por traz de mamãe sentada á mesa, com um dos braços, enlaçava seu corpo, beijava-lhe suavemente os lábios, trazia a mão que estava escondida nas costas e oferecia-lhe um botão de rosa vermelha roubado do jardim.
Víamos mamãe sorrir apaixonada e achávamos tão engraçado. Trocávamos olhares travessos e não conseguíamos conter os risos, escondendo com as mãos nossas bocas. Ele erguia-se, direcionava-nos um breve olhar sisudo seguido por um carinhoso sorriso paternal.
Sentava-se à mesa e pedia o jantar.
Minhas lembranças foram subitamente interrompidas pela queda de um talher ao chão, quebrando aquele tão doloroso silêncio daquela sala triste, outrora infestada de tanta alegria.
Já fazia muitos anos que eu e minhas irmãs tínhamos saído daquela casa, tínhamos nossas próprias vidas, nossos próprios amores e nossas próprias famílias. Porém, uma vez por ano, no dia do seu aniversário, nos reuníamos sempre e revivíamos aqueles deliciosos momentos de nossa infância.
Este ano, ele não estará presente, nós sabemos. Mariana, Letícia e eu. Mas mamãe ainda o espera, a velha cadeira de jacarandá ficará fazia e não vai haver jantar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

OS OLHOS TRISTES DE LORENA
Marcia Brack da Costa

Como em todas as manhãs de sábado, estava eu sentado no mesmo banco verde de ferro em frente ao play ground da pequena praça de bairro. Gostava de estar ali, lendo e vez em quando admirando as crianças brincarem. Suas risadas infantis somadas ao canto dos pássaros que revoavam nas copas dos velhos cinamomos com seus galhos e troncos camuflados por eras pendentes soavam como uma agradável sinfonia aos meus ouvidos.
Foi quando a vi pela primeira vez. Chamou-me a atenção a forma como caminhavam; A mãe à frente caminhando a passos largos como que puxando a menina sorridente saltando feito uma cabrita sobre o areão do caminho e cantarolando uma canção infantil.
Ao passarem por mim, parou de cantarolar e fitou-me com ar de desamparo, olhos caídos e tristes. Não foram necessárias palavras para que eu percebesse um pedido de ajuda naquele olhar. Seguiram em frente sem parar e ela continuou fitando-me, virando a pequena cabeça para trás até sentir sua mão puxada, para que aumentasse os passos.
Fechei o livro e pus-me a observá-las mais atentamente. Pararam em frente ao play ground, a mãe sentou-se na pequena mureta de tijolos enquanto ela manteve-se em pé a sua frente. Apática e alienada ao que ocorria na sua volta. Pude ver sua mãe sorrindo, puxar-lhe o corpo delicadamente para si, gesticulando e apontando em direção das outras crianças que ali brincavam. Lorena baixou a cabeça e virou-a de um lado ao outro. Recebeu então um terno abraço e, neste momento, percebi a menina fitando-me com aqueles olhos tristes por trás do ombro de sua mãe. Senti um calafrio correr-me pelo corpo, como quem é pego de surpresa. Tive uma sensação estranha, como se eu não devesse estar ali. Baixei o olhar meio sem jeito e tentando disfarçar retornei à minha leitura.

Alguns minutos se passaram; quando ergui novamente os olhos não mais estavam lá. Causou-me estranheza não ter percebido as duas partirem; pois eu mal conseguia concentrar-me na leitura, deveria ter notado o movimento de seus vultos, eu estava tão perto delas.
Fiquei mais algum tempo sentado naquele banco, as risadas e gritos das crianças pareciam estar tão distantes, assim como o canto dos pássaros. Senti uma dormência esquisita e já não assimilava mais a trama do romance que lia. Aqueles olhos não me saíam do pensamento, imaginava o que poderia ter causado tão profunda tristeza em Lorena.

Os dias seguintes passaram-se sem nada de diferente acontecer. Uma rotina tão igual que nem sequer consigo lembrar o que fiz durante a semana. O que comi, onde fui e com quem falei.
Talvez eu devesse procurar um médico. Só consigo lembrar-me dos olhos tristes de Lorena.

No sábado seguinte, lá estava eu novamente, no mesmo banco, com o mesmo livro, mas não vi Lorena.
Como é agradável este ar puro, esta brisa fresca acariciando meu rosto, a paz que esta praça me traz.
Tomei às mãos o livro e percebi que o marcador encontrava-se na mesma página da semana anterior. Ao virar a pagina, vi que as seguintes estavam borradas de tinta vermelho púrpura. Como foi acontecer isso? Sou sempre tão cuidadoso. O que eu teria derramado sobre o livro?
Desviei meu olhar em direção ao play ground. Lembrei de Lorena. Muitas crianças brincavam. Eu não conseguia identificá-la entre elas. Seus olhos tão tristes voltaram á minha lembrança e a mesma dormência e sensação de que eu não deveria estar ali voltaram a me tomar o corpo. Meus pensamentos tornaram-se confusos e imagens reveladoras surgiram como flashes diante de mim.

Eu estava tão abstraído por meus devaneios e pelas brincadeiras das crianças que nem pude perceber a aproximação deles, foi tudo tão rápido, senti o cano de ferro trêmulo e gelado em minha têmpora, uma voz desordenada e bruta mandou que lhe passasse a carteira.
Instintivamente virei em sua direção para identificar quem era e neste momento escutei um forte estampido, o livro caiu no chão seguido por meu corpo. Minha cabeça descansou sobre suas páginas abertas, vi dois pares de pernas fugindo, ouvi os gritos de pavor das crianças e uma delas correndo em minha direção, os cabelos longos e cacheados sacudindo, ajoelhou-se diante de meu corpo inerte.
Ainda me restaram forças para sussurrar
- Como é teu nome menina?
Ela estendeu-me a mão fitando-me os olhos
- Lorena
As vozes e o canto dos pássaros foram ficando cada vez mais distantes. As cores das folhas dos velhos cinamomos foram se apagando e a última lembrança que tenho é a visão dos olhos tristes de Lorena.